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O CONTO

maio 25, 2009

20082007185752“As grandes épocas de nossa vida ocorrem quando sentimos a coragem

derebatizar o mal que em nós existe como o melhor de nós mesmos.”
(Nietzsche – Além do bem e do mal; aforismo nº 116).

Esse é o conto que seu amigo lhe falou. Você o lê. É pouca coisa, três ou quatros páginas. Não vai demorar mais do que alguns minutos. A primeira palavra é “féretro”. Você não entende. Busca o dicionário. O dicionário diz que é caixão para defunto. A palavra é feia, o sentido não tem significado, derrepente você se pergunta: “que conto é esse?”.
As pontuações estão todas erradas. Algumas palavras estão escritas de forma equivocada. Não há sentido algum no texto. Então, você vê a próxima palavra, oblação, “mas que porra é essa?!” Você se pergunta. O dicionário esta na sua frente para te responder. Você já tem sua opinião a respeito do conto, mas não faz sentido. Então você insiste. Tem que terminar para entender.
A terceira palavra é “intumescer”. Esse conto é uma droga. Você já desiste de procurar o dicionário. Como isso ganhou um prêmio, você se pergunta. Como foi que isso ganhou uma antologia? Como que isso é intelectual? Não faz sentido, mas mesmo assim, você o lê. Tem que ler. Seus amigos elogiaram essa literatura. A critica disse que é um dos contos pós-modernos mais contemporâneos e reflexivos da história da humanidade. É badalação. Aquela palavra significa inflar-se. Não faz sentido algum. Você é forçado a entender. É arte pós-moderna. É isso que esse conto é.
Mas não faz sentido. Nada faz sentido. A citação que deveria indicar o assunto do conto, não tem significado com o texto. A quarta palavra é “mortiço”. Você supõe alguma coisa relativa a palavra cortiço, mas sabe que é inútil. A essa altura, já não importa se há ou não um significado, você foi forçado a descobrir por si mesmo. O conto é uma droga. Não há história, não há enredo, mas o que realmente você não entende é como seus amigos elogiaram isso…
Como podem a criticar gostar disso? Como podem elogiar tanto essa merda? Então você pensa no autor. Deve ser o autor. Ele deve ser uma estrelinha da mídia. É a mídia que distorce tudo. Fizeram uma puta virá escritora, um mago ganhar academia de letras, e um idiota metido a besta elogiar uma droga de livro irariano. O autor é chave de tudo. Só que você não conhece o autor. Ele não aparece na mídia televisiva. O autor é desconhecido. Um novato. Deve ser por isso que é tão ruim.
Você busca fotos na internet. As fotos apresentam um rosto coberto por uma franja de cabelo. Gel puro. Estilo alternativo.
Alternativo… Essa é a palavra. Não está escrita no texto, mas você sabe que é disso que se trata. Entende que é assim que funciona. Sente inveja. Alternativo é tão subjetivo que qualquer um pode ser. Fosse a merda da Indústria Cultural que você aprendeu na Faculdade de Artes, que não presta para porra nenhuma, jamais saberia o termo que te faz sentir tanta raiva e inveja. Indústria Cultural.
É isso que faz aquele idiota do Alemão ser um líder imbecil de opinião. É o que faz da puta uma escritora e do mago um membro oficial da Academia Brasileira de Letras. É isso que faz de você um idiota.
Você escreve. Sabe disso. Sabe que é mil vezes melhor que o imbecil esse conto. Mas não adianta. Não adianta escrever resenhas críticas, metendo o pau no texto, que não vai mudar a opinião de ninguém. Você sabe o porque. Por que você não é ninguém. Quem é você para alguém te ler? O que você fez na sua vida que faz alguém se interessar por ela? Você é nada. E é por isso, somente por isso, que esse conto é tão foda.
Já não importa que palavra esteja lendo nesse momento. Já não importa se você chega ao final ou não. Contra o que descobriu, não tem como ganhar. É uma batalha perdida. Então, por que você continua lendo isso? Você não quer descobrir o final, você quer descobrir a esperança. Ou pelo menos, você a quer manter viva.
Que esperança é essa? Você se pergunta, mas já sabe a resposta. A esperança de que de fato seus amigos não sejam tão burros quanto você acha que são. A esperança de que a puta seja uma boa escritora e os membros da Academia de Letras sejam inteligentes. A esperança de que esse conto seja bom.
Mas você sabe que é mentira. Por que se alimenta com mentiras? Você só se machuca desse modo. Mas a verdade… A verdade dói mais, não é? No íntimo você sabe que a verdade não te liberta, que ela te restringe, que ela te isola. E você está cansado da solidão. Não agüenta mais. Seus amigos já não querem mais te passar textos, porque te acham o “do contra”. Por que eles acham isso de você? Porque você não gosta de nada. Todos os textos, livros, filmes que eles indicam, é sempre a mesma opinião patética. Isso não é bom. Isso é fruto da televisão. Isso é pura ladainha midiática.
Você está cansado disso, não está?
A essa altura você compreende a dolorosa e fática verdade. Não se trata do conto, não se trata do autor, não se trata da opinião. É sobre você. Você que é o problema. Você que não entende as palavras. Você que insiste em ler aquilo que já sabe como terminará… Você é chave de tudo. Então, agora que sabe essa resposta, você esta preparado para uma nova pergunta? Que pergunta é essa? A pergunta é simples… O que você vai fazer agora?

Fim

Maycon Batestin
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Coito Interrompido

maio 25, 2009

Coito_ergo_sum

“Tudo se resume ao sexo”
(Sábio Chinês)

Por favor! Não goze agora… Por favor…  Não goze… Não goze… Por favor… Droga… Ele gozou.
E agora? O que eu faço? Ele parece bastante cansado. Não acredito que ele já tenha gozado? Que tipo de homem é esse? Mas que merda! Eu queria mais… Droga… Pede mais… Será que ele consegue? Ele ta morto de cansaço… Como pode? Essa trepada não durou nem 5 minutos… Ele é muito fraco…
Eu estou sem graça… Que eu digo para ele? Ele também parece estar sem graça… Mas o que é isso? É um sorriso?! Ele ta feliz?! Não acredito nisso… Eu preocupada com o infeliz e ele está sorrindo? Como ele pode estar feliz? Ah claro… Como foi que eu esqueci desse detalhe? Foi ele quem gozou e não eu… Merda de homens!
Por que os homens gozam com mais facilidade que as mulheres? O que nós temos de errada? Eu não acredito nessa noite… Ele parecia tão bacana… Espera, parecia não, ele é bacana… É um gato… Eu não acredito que um gato desse, está na minha cama, e o desgraçado não sabe trepar… Ele não é nenhum jogador de futebol, mas é um escrito maravilhoso… Tudo o que ele fala é lindo, é gostoso, mas ele não sabe transar… Como pode?
É melhor não contar as minhas amigas, elas vão rir de mim… Ou bem, não tem como evitar, né? Vou acabar contando… Ele também… Só que ele vai mentir. É sempre assim, eles gozam em dois minutos e acham que são donos do mundo… “Nossa cara, você não faz idéia de como eu botei aquela potranca para gozar” É assim que eles pensam… Ele não deve ser diferente… Ele ta sorrindo… Por que ele ta sorrindo? Homens são tão complicados…
Por que eu gostei desse cara mesmo? Ah é… Foi no bar. Eu vou quebrar a cara daquela vadia da Verônica… Ela me apresentou a ele… Cachorra… Será que ela já trepou com ele? Sabia que ele era assim e jogou-o para cima de mim? Cachorra! Eu vou me vingar… Espera para ver…
Mas poxa, ele foi tão romântico… Ele é lindo, tanto por fora, quanto por dentro… Nunca fui tratada com tanto carinho quanto ele. E olha que é só uma noite… Mas que droga… Eu quero pensar bem dele, mas to com tanta raiva… Quero voltar pra casa… Chega… Vou dizer para ele que a noite acabou. Já era. Vamos partir para outra.
Eu quero dizer que acabou para ele… Mas não consigo. Por quê?  Por que é tão difícil? Me sinto tão mal fazendo isso… Será que sou má? Ele vai pensar que é porque não consegue me agradar e vai acabar me xingando de tudo o que tem nome… Mas ele tem razão… É por isso mesmo… Então, o que tem de errado nisso? Ele vai dizer que sexo não é tudo… bobagem! Todo mundo gosta de sexo. É por isso que romances começam e terminam, oras!
Está decidido, eu vou terminar isso antes que vire outra coisa… Mas espera o que ele ta fazendo? Ele ta se virando para mim… Ele vai dizer alguma coisa… Calma-se Renata… Acalma-se Renata… Espere para ver o que ele vai dizer…
“Renata, Eu te amo”… Eu não acredito nisso… Ele disse que me ama? Como ele pode falar uma coisa dessa, numa noite dessa, depois disso tudo? Droga… Agora que eu não posso terminar com ele mesmo… Ele vai achar que eu sou uma vaca-fria, uma cachorra… Deus e agora o que eu faço?
Parece que ele quer mais uma trepada… Que merda! Me fudi… Espero que pelo menos, essa segunda vez dure mais…

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Fanzinália na ECA-USP

fevereiro 12, 2009

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Amanhã, dia 13 de Fevereiro de 2009, um evento inóspito ocorrerá com o pequeno grupo de zineiros de Cachoeiro de Itapemirim, eles se apresentarão na Escola de Comunicação e Artes de São Paulo.

O convite surgiu do doutor em Ciências de Comunicação, Waldomiro Vergueiro, que após receber a monografia de três integrantes do grupo, os convidou para apresentarem o projeto Fanzinália. Pela primeira vez na vida desses jovens, a oportunidade de estar entre os grandes quadrinistas e estudiosos de fanzines e artes em geral é um prestígio inabalável. “Estamos muito contentes com o convite e vamos com tudo o que nós temos”, revela o zineiro Maycon Batestin, autor dessa entrevista.

O evento será realizado na Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, Cidade Universitária, Butantã, São Paulo, na sala de 258, do Departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA, das 20 às 22 horas. Quem quiser ir está convidado.

Na semana que vem, fotos do evento, fotos da gente, fotos de São Paulo e, principalmente, fotos da estrada serão postados aqui no blog. Qualquer dúvida entrem em contato com o grupo pelo e-mail fanzinalia@gmail.com

 
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FUCKMAN – Além do Heroísmo

fevereiro 12, 2009

outreach“Há um herói em cada um de nós” (Tia May)

Quem sou eu? Quantas vezes em sua vida você já foi pego por essa pergunta? Olhando fixamente para o espelho, em plena manhã de segunda-feira, convicto que esse é apenas um outro dia qualquer, a velha rotina, o velho papo de sempre, o mesmo nó na gravata, o mesmo penteado, o hálito insólito de um café da manhã que nunca muda. Quantas vezes é preciso repetir a rotina até ter certeza de quem você realmente é? Já olhou o mundo a sua volta, pela janela de um ônibus, às sete e meia da manhã e concluiu, que todas aquelas pessoas, jovens, adultos, mulheres, idosos, baixos, gordos, deficientes e gays caminhando para lá e para cá, são completamente fudidos? Que esse mundo, imerso em uma bolha assassina de inércia e frustração é fudido? E conclui, que nesse mundo, ao redor dessas pessoas, você não passa de um outro fudido? Então, esse sou eu, o FuckMan!

Tenho por volta de vinte e seis anos. Sou então o que se pode chamar de ‘jovem’, porém, com espírito velho. Moro em Baiacu de Angolas, uma cidade no norte do estado da Paraíba, onde ninguém faz a menor idéia de sua existência, e mesmo quem sabe, não se importa muito com esse tipo de conhecimento, uma vez que a cidade é conhecida por ser um forno municipal. Trabalho como balconista de um hospital público, ou seja, lido com pessoas fudidas o tempo todo. Sempre das sete da manhã às oito da noite, estou lá, dando entrada de pacientes, marcando consultas, dizendo “sim”, dizendo “não”, me comportando exatamente como um robô deve se comportar. Moro em uma republica estudantil a cinco minutos de ônibus do local de trabalho, curso Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda, na instituição São Carlos e recebo um salário de oitocentos reais mensal.

Essa é minha vida. As pessoas têm, em seu juízo, o consenso de me chamar de herói. No que diz respeito a elas, minha profissão é comparada aos de médico, pois a semelhança entre um recepcionista e um Clínico Geral é mínima. Grande idiotice. Se elas fossem espertas ou um pouco inteligentes, conseguiriam ver, em algum parágrafo da constituição que ninguém usa, as linhas que dizem respeito a minha profissão: “Ei otário! Você tem direito a saúde”.

Confesso que no momento em que estou atualmente, me encontro superfaturado. Estou simplesmente cansado de pagar dois reais para andar cinco minutos de ônibus. E estou cansado de andar a pé por isso. Estou cheio de ser simpático com pessoas mais fudidas que eu, que se aproveitam de meu carisma para entrar fora do horário de visita para ver seus parentes morrerem. Estou cansado de receber esporro por isso. Estou farto de ter que pagar seiscentos reais de aluguel em um quarto que divido com outra pessoa, que não trabalha e não limpa o bendito quarto a mais de uma semana. Estou cansado disso. Estou enjoado da rotina, cansado de ter que acordar todo santo dia, na mesma hora de sempre. É tempo de aceitar o fato de que vou morrer. Tenho meus dias contados, e agora, acho que ta na hora de fuder geral.

Vou mandar para puta que pariu esse chefe de bosta que eu tenho, não preciso ouvir xingamentos, não preciso ser humilhado. E também que se dane a faculdade de Comunicação, publicidade só dá dinheiro para aqueles que vendem sua alma em anúncios nada criativos. Que se foda o calor. Está beirando a quarenta e dois graus Celsius nessa cidade, e não estou com saco para andar cinco minutos a pé, de um lugar para outro, apenas para não pagar dois reais de ônibus. Estou cansado disso.

Uma vez me disseram que já que estamos nesse mundo contra nossa vontade, devemos fazer o bem, porque somente por esse ato, é que o mundo se tornará um lugar bom para se viver. Eu vou com uma nova teoria. Já que estamos contra nossa vontade, e o esforço da bondade é desilusão diante da imersão da hipocrisia capitalista no coração de cada um, está na hora mandar tudo se fuder, de abraçar o que nascemos para ser, além do heroísmo, abaixo de qualquer moralidade, um FUCKMAN com gosto.

Isso não deve ficar apenas na vontade, todos temos vontades maliciosas em nosso coração. De pegar um bastão de beisebol e sair porrando cada indivíduo na rua que te atrapalha a andar, parando sempre em sua frente, em uma tarde de quarta feira, com quarenta e dois graus em cima de sua cabeça. Não. Isso não deve ficar só na vontade. Abaixo de meu balcão, há um guarda chuva inutilizado. É com ele que começo a mudança.

Ligo para o ramal de meu chefe. São duas horas da tarde. Peço que venha até aqui. Ele vem. Digo que estou com problemas no teclado do computador. Ele se aproxima. Saco minha arma, o guarda chuva, e a pancada na nunca, simplesmente, é linda! O corpo se desmonta e ele cai ao chão. Agora são chutes, pontapés violentos na barriga e na cara. Eu xingo. Grito. Digo a verdade. Liberto meu coração. Ele diz, ou eu acho que está dizendo, não consigo entender, o barulho de meus gritos e a boca ensangüentada dele confundem todos os sons. O lance não é ouvir, é sentir! E eu estou sentido. O poder é a liberdade.

Depois de porra-lo quase a morte, digo para as pessoas, que assistiram a tudo, pasmadas e assustadas, que o horário de visita está liberado. Hoje é um dia especial. Não vou mais barrar ninguém. Vou para a casa. Caminho até o ponto de ônibus, segurando meu guarda chuva. Sinto o calor desumano, mas não me sinto incomodado, me sinto realizado. O ônibus chega, de inicio tento ser gentil. Tento conversar, mas diálogos no Brasil é uma forma primitiva de evolução e negociação, assim apresento ao motorista e ao trocado, o guarda chuva. As pessoas entram em pânico. É o velho efeito dominó. O pânico começa na frente, com os idosos e vai passando para trás. Logo o soldado que entrou de graça, graças a sua farda, não pode fazer muita coisa, o pânico também o dominou.

Lógico que ele é treinado para esses tipos de situações, mas quando ocorre, sem previsão, não é todos que conseguem dominar suas razões. O espancamento é lindo. O motorista grita e pede desculpa, o trocador chora engolindo os dentes e as janelas são pintadas de sangue. Mando todo mundo se fuder, tiro o motorista e o trocador do ônibus, jogo-os pela janela e dirijo. Não vou mais para minha casa. Há um lugar especial onde devo chegar.

Esse lugar surgiu do nada. Um pensamento heróico, altruísta, típico de um FuckMan. Penso na raiva, na frustração, nas malditas regalias e privilégios políticos, penso na porra da Prefeitura. Vai ser um tremendo choque. As matérias do dia seguinte relataram que um doido jogou um ônibus a mais de 140 por hora contra o prédio da Prefeitura, em um dia de reunião. 22 vereadores corruptos e um prefeito filho da puta, morreram.

Dirijo mais rápido.

O poder de FuckMan é tão grande que gostaria de ter sete vidas. Destruiria palácios governamentais, Faculdades Corruptas, Igrejas hipócritas, Rede Globo, todos os malditos “MC” alguma coisa. Mas só posso morrer uma vez. E vai ser uma morte histórica. Dobro a ultima curva, vejo a Prefeitura, miro, justamente, na sala que eu sei onde estão reunidos. Imagino que alguém abra as cortinas nesse ponto, e veja um ônibus alucinado vindo em sua direção. Mas não consigo prestar atenção nisso, o choque acontece. A cabeça choca contra o volante, o guarda chuva voa para trás, os pés e as pernas são esmagados pela lateria, o braço sai do corpo e cacos de vidro me perfuram. Não vejo minha vida passar diante de meus olhos. Eu vejo minha morte detalhadamente. Vejo o teto desabar. Vejo a morte de muitas pessoas detalhadamente. políticos esmagados, sangue para todos os lados. Vejo além da morte, uma criança de seis a sete anos, filha de algum desses caras, vejo seu rosto contra o pára-brisa. Vejo seus olhos perplexos, fixados em mim. Eu vejo a morte.

Incrível tantas coisas em tão poucos segundos. Realmente o tempo é relativo. E agora estou morrendo arrependido. Queria usar meu poder para livrar o mundo mal, eliminar o capitalismo, salvar minha própria vida. Mas eu não sou um herói. Sou um fuckman!

Fim

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Crônicas de um Cidadão Estrangeiro

outubro 26, 2008

Ahh!… Que saudades de minha Terra! Aquele congestionado mar de gente, no centro da cidade, atropelando uma as outras, simultaneamente às 10 da manhã de um sábado ocioso. Aquele abafado ar seco ecoado entre montanhas. Aquela lúgubre funesta nostalgia de grandes poetas e artistas que nunca vivenciei em memória viva.
Sinto falta. Sinto falta de acordar às sete e meia da manhã, abrir as janelas do quarto e não conseguir testemunhar aquela paisagem príapa de uma formação rochosa erosada pelo tempo. O símbolo de orgulho do nosso povo.
Sinto falta de seus morros e precipícios, da falange malvada e do orgulho cego. Sinto falta das coisas que de lá me pertenciam como, por exemplo, a alienação, a extração, a exportação, e principalmente, a acomodação. Era uma forma de não fazer nada e ser feliz, sem perguntas e sem respostas, o completo silêncio absurdo de um lugar onde a esperança era uma palavra embaçada de um outdoor esquecido. Sinto falta de não fazer parte dela, de nunca ter sido dela, de imaginar que, embora ainda esteja nela, eu seja um completo cidadão estrangeiro.

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A Saga de um Poeta Desensibilizado Parte 3

outubro 19, 2008

Parte 3 – O golpe final

22h00 Casa da puta

– Enfim, você chegou. Atrasado, mas chegou!

– Poetas nunca se atrasam, querida, sempre surgem no momento propicio…

– Hum…Mal chegou e já está poetizando! Você é incrível!

– Hum… Que eu posso fazer se você desperta isso em mim…

– Quer dizer que está redescobrindo seus sentimentos…

– Só os mais poéticos…

– Hahahah! Poeta! Que veio fazer aqui?

– Ahh Você já sabe o que eu vim fazer…

– Sim… Eu sei…

– Então…

– Faz uma poesia para mim…

– Como?

– Sim…Quero ouvir uma poesia sua…

– Eu não preciso criar nenhuma poesia, já estou diante da mais linda!

– Ual! Poeta, você é um chavão dos bons!

É porque nesse momento, qualquer que seja nossa ação é um clichê…

– E que clichê mais patético, não? Um poeta apaixonado por uma puta…

Ah… Já diziam os filósofos que os poetas são loucos a divagar versos pela praça. Eu ando pelas ruas quase sempre encontro quase nada. Mas eis que há essa puta, que das poesias ouviu minhas palavras, se é loucura adentrar em sua casa, então sou um louco em sua praça.

– Ual! Poeta, hoje você está inspirado!

– É seu corpo nu que aos meus olhos despidos desperta no coração cru um amor perdido.

– Só tem um problema com essas poesias, poeta…

– Ah é?! Que problema?

– Eu não te amo.

– como?

– Eu não te amo…

– Como assim não me ama? Você disse que ouviu minhas palavras.

– Não, poeta! Eu disse digamos que alguém tenha ouvido, era uma suposição.

– Como assim uma suposição? Que você está fazendo?

– Ah poeta, não seja inocente, eu sou uma puta! É meu papel oferecer amor, mas, não é minha obrigação te amar…

– Você não pode fazer isso comigo? Porra! Sua Puta! Sua viada! Cachorra! Eu vim de longe para isso?

– Eu nem te convidei a vim…

– Você falou o seu endereço para mim…

– Porque me perguntou, mas não me pediu permissão para vim.

– Droga, sua puta! Cachorra! Filha da puta!

– Sim eu sei que sou. Sou a mais ou menos 8 anos.

– Droga, eu acreditei! desgraçada, você não sabe o quão era importante para mim…

– Não me venha com essa Você pode ser o poeta, mas não sabe porra nenhuma sobre o amor.

– Ah vai pra merda!

– Caro poeta, quem é você para depositar sua esperança de uma vida perfeita em uma puta? não faça de mim, nem de ninguém, o seu refúgio da realidade.

– E quem é você para achar que sabe o que é realidade? Sua realidade se resume a gozadas, as minhas ao menos têm sentimentos.

– E quem disse que gozar não tem sentimentos? Sou uma receptora constante de sentimentos, e talvez, seja mais do que você, poeta desensibilizado.

– Vai se fuder! Vou para casa! Não quero mais falar com você!

– Tudo bem, então, são 800 reais.

– 800 reais pelo que?

– Por quebrar seu coração…

– Acha que eu vou te pagar por isso? Quem é você para me cobrar isso?

– Oê, poeta?! Esqueceu o acordo?

– Que acordo?

– Você me pagou para te rejeitar

– Ah…isso! Então nunca foi real?

– O que você achava? Eu sou uma puta, esqueceu?

– É, toma seus 800 contos agora some!

– Obrigado, poeta! Foi um prazer te fuder!

– Há Há Há! Realmente você é uma puta!

– Sim, eu sou… E você é um poeta. Um poeta, agora com sentimentos!

Fim

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A Saga do Poeta Desensibilizado – Parte 2

outubro 19, 2008

parte 2 – Por Telefone

20h00 na residência do poeta.

– Alô?

– Oi!

– Imaginei que fosse você, o quer…

– Você sabe o que quero…

– Vamos poeta! Para com isso! Está sendo ridículo já…Eu sou uma prostituta e você é um poeta, você sabe que isso nunca dará certo!

– Todo poeta é uma puta diante do amor, vende-se fácil a sua musa e enlouquece a súplica da dor. Você sabe disso. Não há diferença entre espécimes, só nos versos, aqueles que dedico a você e aqueles que me manda ao inferno..

– Hum… Ta redescobrindo os sentimentos? Eu senti que isso era raiva?

– Não… Foi só uma improvisação…

– Hum… Então poetas também conseguem improvisar?!

– Oé! Não disse que somos putas diante do amor?! Então, que putas seriamos se não soubéssemos improvisar?

– Não me compare a você, embora sua profissão seja nobre e a minha herege, ao menos eu posso sentir algo, o que me faz mais humana que você.

– Verdade, não sou um humano. Sou poeta.

– Como se fosse coisa boa…

– Costumava ser quando eu sentia as coisas, sabe. Eu olhava para a sua foto 3×4 em minhas palavras eram ouvidas. Sabe a gente começa a escrever acreditando que pode mudar o mundo, quando amadurecemos, percebemos que isso é idiotice, o mundo não quer mudar. Então, a gente torce para que as nossas palavras sejam ouvidas e sentidas por alguém, e eu achei que fosse ela.

– Hum, que dizer que antes de mim, havia ela?

– Sempre houve ela, o que não havia era eu.

– Como assim?

– Ela sempre existiu para mim, mas nunca eu para ela. As rimas, os versos, as palavras eram partes de um coração que entregava a cada poesia a ela, mas ela nunca leu. Ela nunca entendeu, ela nunca sentiu.

– Que triste…

– É a síntese do amor. Diziam os antigos profetas de uma tribo indígena, que ao nascermos nosso espírito se dispersar pelo mundo, e nos tornamos incompletos desde então. Assim, nossa missão, segundo eles, era percorre o mundo em busca desse espírito para que possamos ser completos novamente.

– Hum, e você achava que ela fosse seu espírito?

– Sim…

– Ninguém deve ser espírito de ninguém. Eu sou uma puta, sei muito bem o que estou falando. Não devemos vim ao mundo sendo obrigados a ficar com outro só para completá-lo. Afinal, todos nós somos incompletos por natureza. Alguns buscam no sexo a sua completude, outros fazem poesias, alguns acham que é só dinheiro, a verdade é que jamais estaremos completos, porque somos humanos.

– Desde quando você entende tanto sobre isso?

– Você não é o primeiro cara que me liga altas horas da noite para me falar de outra garota, eu pensei que era sua única…

– Você é ela… Nunca leu… Nunca ouviu e nunca sentiu…

– Mentiroso romântico! Eu sei que não sou ela. Porque se fosse, te rejeitaria, ainda que houvesse me pagado por isso.

– Mas eu realmente te paguei para me rejeitar!

É, mas digamos que alguém ouviu suas poesias. Alguém cujos ouvidos sejam ímpios e que grande parte do corpo que abomina eles não seja novo. Digamos que, ainda assim, suas palavras alcançaram os tímpanos dela e que, por qualquer que seja a razão, elas foram sentidas.

– E se for verdade que tal alguém exista, o que eu devo fazer?

– Ah poeta…Sou uma puta sentimental, você que é o poeta desensibilizado, o que sua interpretação dos fatos te levam a concluir…

– Levam-me a concluir apenas uma pergunta…

– E qual é?

– Onde você mora?

Continua…