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O CONTO

maio 25, 2009

20082007185752“As grandes épocas de nossa vida ocorrem quando sentimos a coragem

derebatizar o mal que em nós existe como o melhor de nós mesmos.”
(Nietzsche – Além do bem e do mal; aforismo nº 116).

Esse é o conto que seu amigo lhe falou. Você o lê. É pouca coisa, três ou quatros páginas. Não vai demorar mais do que alguns minutos. A primeira palavra é “féretro”. Você não entende. Busca o dicionário. O dicionário diz que é caixão para defunto. A palavra é feia, o sentido não tem significado, derrepente você se pergunta: “que conto é esse?”.
As pontuações estão todas erradas. Algumas palavras estão escritas de forma equivocada. Não há sentido algum no texto. Então, você vê a próxima palavra, oblação, “mas que porra é essa?!” Você se pergunta. O dicionário esta na sua frente para te responder. Você já tem sua opinião a respeito do conto, mas não faz sentido. Então você insiste. Tem que terminar para entender.
A terceira palavra é “intumescer”. Esse conto é uma droga. Você já desiste de procurar o dicionário. Como isso ganhou um prêmio, você se pergunta. Como foi que isso ganhou uma antologia? Como que isso é intelectual? Não faz sentido, mas mesmo assim, você o lê. Tem que ler. Seus amigos elogiaram essa literatura. A critica disse que é um dos contos pós-modernos mais contemporâneos e reflexivos da história da humanidade. É badalação. Aquela palavra significa inflar-se. Não faz sentido algum. Você é forçado a entender. É arte pós-moderna. É isso que esse conto é.
Mas não faz sentido. Nada faz sentido. A citação que deveria indicar o assunto do conto, não tem significado com o texto. A quarta palavra é “mortiço”. Você supõe alguma coisa relativa a palavra cortiço, mas sabe que é inútil. A essa altura, já não importa se há ou não um significado, você foi forçado a descobrir por si mesmo. O conto é uma droga. Não há história, não há enredo, mas o que realmente você não entende é como seus amigos elogiaram isso…
Como podem a criticar gostar disso? Como podem elogiar tanto essa merda? Então você pensa no autor. Deve ser o autor. Ele deve ser uma estrelinha da mídia. É a mídia que distorce tudo. Fizeram uma puta virá escritora, um mago ganhar academia de letras, e um idiota metido a besta elogiar uma droga de livro irariano. O autor é chave de tudo. Só que você não conhece o autor. Ele não aparece na mídia televisiva. O autor é desconhecido. Um novato. Deve ser por isso que é tão ruim.
Você busca fotos na internet. As fotos apresentam um rosto coberto por uma franja de cabelo. Gel puro. Estilo alternativo.
Alternativo… Essa é a palavra. Não está escrita no texto, mas você sabe que é disso que se trata. Entende que é assim que funciona. Sente inveja. Alternativo é tão subjetivo que qualquer um pode ser. Fosse a merda da Indústria Cultural que você aprendeu na Faculdade de Artes, que não presta para porra nenhuma, jamais saberia o termo que te faz sentir tanta raiva e inveja. Indústria Cultural.
É isso que faz aquele idiota do Alemão ser um líder imbecil de opinião. É o que faz da puta uma escritora e do mago um membro oficial da Academia Brasileira de Letras. É isso que faz de você um idiota.
Você escreve. Sabe disso. Sabe que é mil vezes melhor que o imbecil esse conto. Mas não adianta. Não adianta escrever resenhas críticas, metendo o pau no texto, que não vai mudar a opinião de ninguém. Você sabe o porque. Por que você não é ninguém. Quem é você para alguém te ler? O que você fez na sua vida que faz alguém se interessar por ela? Você é nada. E é por isso, somente por isso, que esse conto é tão foda.
Já não importa que palavra esteja lendo nesse momento. Já não importa se você chega ao final ou não. Contra o que descobriu, não tem como ganhar. É uma batalha perdida. Então, por que você continua lendo isso? Você não quer descobrir o final, você quer descobrir a esperança. Ou pelo menos, você a quer manter viva.
Que esperança é essa? Você se pergunta, mas já sabe a resposta. A esperança de que de fato seus amigos não sejam tão burros quanto você acha que são. A esperança de que a puta seja uma boa escritora e os membros da Academia de Letras sejam inteligentes. A esperança de que esse conto seja bom.
Mas você sabe que é mentira. Por que se alimenta com mentiras? Você só se machuca desse modo. Mas a verdade… A verdade dói mais, não é? No íntimo você sabe que a verdade não te liberta, que ela te restringe, que ela te isola. E você está cansado da solidão. Não agüenta mais. Seus amigos já não querem mais te passar textos, porque te acham o “do contra”. Por que eles acham isso de você? Porque você não gosta de nada. Todos os textos, livros, filmes que eles indicam, é sempre a mesma opinião patética. Isso não é bom. Isso é fruto da televisão. Isso é pura ladainha midiática.
Você está cansado disso, não está?
A essa altura você compreende a dolorosa e fática verdade. Não se trata do conto, não se trata do autor, não se trata da opinião. É sobre você. Você que é o problema. Você que não entende as palavras. Você que insiste em ler aquilo que já sabe como terminará… Você é chave de tudo. Então, agora que sabe essa resposta, você esta preparado para uma nova pergunta? Que pergunta é essa? A pergunta é simples… O que você vai fazer agora?

Fim

Maycon Batestin
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